sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Retrato de um artista


Título do livro: A Portrait of the Artist as a Young man
Autor: James Joyce (Dublin, 1882 – Zurique, 1944)


“A reprodução é o começo da morte”,
in O Retrato do Artista quando Jovem


                Do Prefácio à edição portuguesa da DIFEL, escrito por Alfredo Margarido:
                “A palavra liberdade, tantas vezes repetida pelo jovem Stephen Dedalus, apela para uma outra fundamental no percurso do jovem romancista: o exílio.”




                Stephen Dedalus, a personagem principal, deve o seu primeiro nome ao primeiro mártir do cristianismo. Dedalus – ou labirinto -, é, assim, um artista dividido entre a sua ambição estética e o legado que os Jesuítas lhe deixaram, após a sua educação num colégio religioso, e que lhe servirá de espartilho para toda a vida.
                Para além do monólogo interior, que Joyce herda do romancista francês Edmond Dujardin, é através da música da língua, com recurso às assonâncias e sinestesias (a começar pelo “baby-tooko”, com que Stephen Dedalus, ainda bebé, se identifica), que Joyce quebra, a partir deste seu primeiro romance, com a forma do romance tradicional.
                Vejamos o início do romance, retirado do original:


            Once upon a time and a very good time it was there was a moocow coming down along the road and this moocow that was coming down along the road met a nicens little boy named baby tuckoo...

                His father told him that story: his father looked at him through a glass: he had a hairy face.

                He was baby tuckoo. The moocow came down the road where Betty Byrne lived: she sold lemon platt.

                                                               O, the wild rose blossoms
                                                               On the little green place…


                He sang that song. That was his song:

                                                               O, the green wothe botheth…

                When you wet the bed first it is warm then it gets cold. His mother put on the oilsheet. That had the queer smell.

                His mother had a nicer smell than his father. She played on the piano the sailor's hornpipe for him to dance. He danced:

Tralala lala,
Tralala tralaladdy,
Tralala lala,
Tralala lala.”


                No Retrato do Artista quando Jovem, estamos perante um labirinto espacial escrito na fórmula romanesca de monólogo interior, que derivará nas obras joycianas posteriores para o chamado fluxo de consciência. Segundo o prefácio de Alfredo Margarido, acerca do monólogo interior deste romance de formação, “se o romancista não pode libertar-se da memória especialmente treinada para uma função masochista, inerente à necessidade de sofrimento pregada pelos Jesuítas, o labirinto permite-lhe, contudo, encontrar uma outra espécie de justificação para a própria substância desta meditação sobre os fins do homem.”
                É o fluxo de consciência joyciano que vai permitir que a mente de Sephen Dedalus se reflicta na linguagem infantil, fonética e semanticamente errada da primeira página (na infância do artista) à complexidade da reflexão ética e estética do seu crescimento.
                 
James Joyce


                No início do livro, é o olho atento de Stephen sobre a Irlanda do seu tempo que nos mostra como a igreja católica é também ela responsável pela miserável condição do país. “Este romance formiga de acusações contra a ocupação inglesa, seja evocando as figuras míticas do nacionalismo irlandês, seja procurando destabilizar a língua inglesa” (do prefácio). Para exemplificar a partir do romance, retiro as seguintes passagens:
                “O Sr. Casey levantou-se penosamente da sua cadeira e debruçou-se para ela, açoutando o ar diante dos seus olhos, com uma das mãos, como se arrancasse uma teia de aranha.
- A Irlanda não precisa de Deus! – berrava. – Já tivemos demasiado Deus na Irlanda! Rua com Deus!”;
                “e um momento depois o excitado prefeito empurrava os rapazes pela sacristia fora como um rebanho de gansos, agitando nervosamente as asas da sotaina, gritando aos retardatários que se apressassem. (…)
Num canto obscuro da capela, do lado do Evangelho, uma corpulenta senhora de idade estava ajoelhada entre as suas amplas saias pretas. Quando se levantou, apareceu atrás dela uma figura vestida de cor-de-rosa, usando uma cabeleira postiça dourada e um antiquado chapéu de palha; tinha as sobrancelhas desenhadas a lápis preto, as faces delicadamente pintadas e empoadas. Um ligeiro murmúrio de curiosidade percorreu a capela perante a aparição de tão feminil figura. Um dos prefeitos aproximou-se deste canto obscuro sorrindo e abanando a cabeça. Depois de ter cumprimentado a idosa senhora corpulenta, disse num gracejo:
- Trata-se de uma linda rapariga, ou é uma boneca que tem aí, Senhora Tallon?
Depois, inclinando-se para examinar o rosto sorridente e pintado sob a aba do chapéu, exclamou:
- Não, palavra de honra, parece que se trata afinal de contas do pequeno Bertie Tallon!
Do seu posto da janela, Stephen ouviu rir a senhora idosa e o padre; ouviu atrás de si o sussurro de admiração dos alunos avançando para ver o rapazinho que devia dançar sozinho a dança do chapéu primaveril. Escapou-lhe um movimento de irritação; deixou cair a folha da janela, desceu do banco em que estivera de pé e abandonou a capela.”
                Este aspecto anti-clerical, podemos observá-lo ainda num sermão de um padre jesuíta, durante o retiro anual do colégio onde Stephen foi educado. O padre proclama os quatro fins do homem – Morte, Juízo, Inferno e Paraíso – e angustia Stephen, que vê já a sua alma aproximar-se do Juízo Final. Corrompida pelos mais ridículos pormenores da sua existência, a sua alma “condensava-se, congelava-se, numa gordura compacta, mergulhando cada vez mais, com o seu temor estúpido, num crepúsculo sombrio e ameaçador; enquanto o corpo que era o seu se mantinha de pé, inerte, desonrado, procurando com os olhos sombrios, na sua impaciência, na sua confusão, na sua humanidade, qualquer deus bovino em quem fixar o olhar.”

                A partir deste ponto, o jovem Stephen Dedalus expia a sua relação carnal com as mulheres, as mulheres que, evidentemente, são incompatíveis com a vida da igreja mas que, segundo Joyce, absolutamente fundamentais para o trabalho de qualquer escritor.
                “O caos onde se extinguia o seu ardor era um frio e indiferente conhecimento de si próprio. (…) De que lhe servia rezar quando sabia que a sua alma ambicionava a sua própria destruição?” (do livro)

                Depois de ingressar na universidade, Dedalus passará as restantes páginas a esboçar a sua teoria estética. Já sem medo de afirmar o que pensa, inclusive aquilo que acha sobre a Irlanda (“A Irlanda é a velha porca que devora a sua própria ninhada”), apoia-se nas suas convicções de jovem artista e destaca-se dos amigos como uma espécie de tutor.


“- Nunca tiveste a impressão – perguntou Cranly – de que Jesus não é o que parecia ser?
- O primeiro a quem essa ideia ocorreu – respondeu Stephen – foi o próprio Jesus.”
               

               Dedalus defenderá a estética apoiada em ritmo, beleza e verdade. Para ele, “a arte é a maneira humana de dispor a matéria sensível ou inteligível para um fim estético”; segundo ele, a emoção estética é estática, detém o espírito, não precisando de recorrer ao desejo, ao didático, ao pornográfico ou ao repugnante para se cumprir.
                Dedalus defende as três leis basilares da beleza segundo Tomás de Aquino, que seriam a inteireza, a harmonia e a claridade. A beleza e estética de uma obra de arte traria a epifania que Dedalus busca durante todo o seu percurso de formação ao longo do romance. Apesar d’O Retrato do Artista quando Jovem ser considerado uma espécie de prólogo para Ulisses, é um romance que se afirma bem sozinho, porque detentor destas três leis. Dedalus, voz do romance, procura a epifania abstracta, pura e extática. Vemos esta busca, ainda embrionária, no seguinte trecho, em que o jovem se deslumbra com uma descoberta importantíssima para ele, mesmo que diminuta:
            

    “Inclinava a cabeça para um lado e, sorrindo, batia na saliência que tinha no pescoço, com os dedos. E Stephen também sorria porque já sabia, agora, que era mentira que o Sr. Casey tivesse uma sacola de prata na sua garganta. Sorria ao pensar quanto o barulho, igualzinho ao de prata, que o Sr. Casey tinha o costume de fazer, o havia, durante muito tempo, intrigado. E até quando tentara abrir a mão do Sr. Casey para ver se a bolsa de prata estava escondida dentro dela, vira que os dedos dele não podiam ser esticados; e o Sr.Casey contara-lhe que tinha ficado com aqueles três dedos assim, porque os apertara numa prensa ao fazer um presente de aniversário para a Rainha Vitória. O Sr. Casey tornou a bater no caroço do pescoço e sorriu para Stephen com olhos sonolentos” (excerto retirado da tradução brasileira).
                



SPOILERS:

                O livro é escrito na terceira pessoa: da infância, em que Stephen dá os primeiros passos pela inocência, passando pela adolescência no colégio jesuíta, confrontado com o pecado e a repressão, até à juventude na universidade, em que o artista, negando deus e o passado, se afirma pela arte.           Subitamente, o romance muda para a primeira pessoa, em forma de diários, escritos ao longo de dez anos. Este é um romance que apela para a necessidade do exílio como única possibilidade de afirmação total e livre e é na primeira pessoa, quase como brusca confissão, que termina, como se Dedalus já não tivesse nada a esconder. São apenas quatro páginas de recortes, excertos de uma escrita rápida, de frases curtas, numa espécie de epifania existencialista. Dedalus, rotulado pela mãe como tendo um espírito inquieto que regressaria à fé, não pode arrepender-se. Dedalus, que leu pouco e compreendeu ainda menos, rotulado pelo pai como bom e honesto, que lhe pergunta porque não faz ele parte de um clube náutico, que o empurra para estudar Direito, Dedalus é aqui o modernista por excelência. Com o passado devorado pelo presente, o presente que vive porque apenas traz consigo o futuro, ele deseja a beleza que ainda não conheceu.
                Até aqui, talvez tenha sido apenas “um indivíduo que atira ao ar um punhado de ervilhas”, ou um homem resumido à solidão, que abdicou da juventude para, exilado do trivial, “procurar a realidade da experiência e para afeiçoar na forja da sua alma a consciência incriada da sua raça”.
                No final, pede ajuda ao “antigo artífice”, um antepassado, talvez musa, talvez consciência, talvez sonho, como um mártir que se despede, talvez pedindo o ânimo de que precisará para voltar a forjar, tal como Siegried fez com a espada do seu pai, todo o paul da sua existência.

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