quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

János Valuska, a melancolia da resistência






    Título do filme: Werckmeister Harmóniák
    Realizador: Tarr Béla (Pécs, Budapeste, 21 de Julho de 1955)



            “Esperança é o que vês neste filme”, disse uma vez Tarr a alguém. Para ele, a parte mais importante do filme é o tempo. Duas horas e meia de filme em 39 shots.
         

       O filme foi adaptado do romance de 1989, Melancolia da Resistência, do escritor László Krasznahorkai, que colaborou com Béla Tarr desde essa década. Para além do guião de Krasznahorkai, o filme é acompanhado pelas belas melodias de Mihály Vig, que trazem o frio do Inverno ainda para mais perto.
           
            O espectador é conduzido pela música e pela tensa atmosfera dos longos planos até ao Inverno duma pequena cidade da Hungria, do qual passa a fazer parte sem se aperceber. A câmara leva-nos a fazer parte das ruas da cidade, com o nosso olhar a acompanhar as cenas, escondido por detrás do ombro das personagens.
          

       O título do filme remete para o organista Andreas Werckmeister (século XVII), em cujas descobertas se encontra a base da música ocidental. A personagem György Eszter (Peter Fitz), motivando-se, talvez, por um desejo de devolver a harmonia da música aos arquétipos naturais que a criaram, diz (e passo a transcrever mais ou menos o seu monólogo do filme):
          
  “Este não é um problema técnico mas filosófico, uma inquestionável prova de fé. A harmonia, em que se baseiam as obras mestras, existe verdadeiramente ou não?
Deve falar-se de uma realização única de não-música. Algo que nos foi ocultado e que se deve agora revelar:
A situação vergonhosa de que todos os intervalos nas obras mestras de muitos séculos são falsos. A harmonia destas obras baseia-se num falso fundamento.
Para a maioria, a tonalidade musical pura é uma simples ilusão, para ela, os intervalos puros não existem. No tempo de Pitágoras e de Aristóxenes, os instrumentos puramente afinados eram tocados só em alguns tons porque, para aqueles, as harmonias provinham dos deuses.
Mais tarde, essas harmonias divinas foram manipuladas pelos técnicos, entre eles Werkcmeister.
Werckmeister dividiu a oitava harmonia dos deuses, os doze tons médios, em doze partes iguais. De dois semi-tons ele falsificou um. Em vez de dez teclas pretas, cinco foram usadas e assim concluiu.
Temos que pôr fim a este Temperamento igual e trazer de volta a afinação natural dos instrumentos. Temos que corrigir os erros de Werckmeister. Temos que nos referir a estas sete notas da escala, não desde a oitava mas sim como sete qualidades independentes, como sete estrelas fraternais no céu”.


            
          Segundo Béla Tarr, que despreza histórias, uma vez que levam as pessoas a acreditar que alguma coisa aconteceu, nada realmente acontece quando nos movemos de uma condição para outra. O que resta, segundo ele, é o tempo. “O tempo é provavelmente a única coisa que ainda é genuína – o tempo em si; os anos, os dias, as horas, os minutos e os segundos”.
            
             Tarr disse: “odeio os filmes que vemos nos cinemas. Contam sempre as mesmas histórias. Nós não gostamos deste tipo de histórias porque para nós cada uma delas é sempre a mesma velha história do Antigo Testamento. Depois do Antigo Testamento, não tivemos novas histórias. As histórias dos filmes não são novas e esta é a razão pela qual pensamos: Ok, a história é só uma parte do filme”.
            
              Sem, pois, falar demasiado na história do filme, vou apenas dele resumir alguns momentos que me ficaram para sempre guardados, segundo Almada Negreiros, nas duas partes intelectuais que temos, a memória e o esquecimento.
            
              


         O início do filme é um dos mais espantosos da história do cinema. Pela atmosfera onírica, pela beleza do preto e branco, pela música que o acompanha, pelo não-dito:
            Na cidade, um bar prepara-se para fechar. Por entre homens embriagados (segundo Tarr, os actores realmente estão bêbados nos seus filmes), aparece János Valuska, a personagem principal. Valuska, pegando nos bêbados, envolve-os numa dança ilustrativa do funcionamento do sistema solar e de um eclipse. Durante o eclipse, Valuska diz, há a escuridão que obriga toda a Terra a adormecer. “Há um completo silêncio. Tudo o que vive está quieto”. Não podemos saber se no final do eclipse virá a maior destruição, mas não precisamos de temê-lo, não é o fim. “Porque a Lua, lentamente, nada, afastando-se. Escapamos do peso da escuridão”, termina. O bar fecha e seguimos os passos de Valuska desde esse momento até ao final do filme.
            






           Tarr disse numa entrevista que apenas queria fazer um filme sobre um homem que anda de cima para baixo numa vila e que vê uma baleia. É Valuska, um arquétipo de pureza, mas neutro, que liga as personagens, sem as afastar das suas simbólicas influências nos acontecimentos do filme.
          

         À cidade chega o circo, durante o Inverno, que consiste numa baleia gigante e num convidado especial que se chama “O Príncipe”. O circo traz com ele a sensação de eminente catástrofe. O povoado vê-se perante uma desconhecida voz que o impele para a destruição. Uns, conduzidos por essa mensagem que ninguém sabe de onde vem, instauram o caos na cidade, outros, aproveitando-se da discórdia, tentam extrair dela algum poder para conseguir trazer de volta “a ordem e a limpeza”. A cidade parece estar próxima de um eclipse devastador.
           
        Talvez a baleia simbolize o incompreendido, o obscuro lado divino que não nos dá respostas. Talvez o príncipe seja a sombra do poder a quem não podemos ver o corpo mas cuja voz nos leva a cometer as mais fúteis atrocidades contra a inocência. Talvez János Valuska seja o reflexo dessa mesma inocência de que todos os outros se aproveitam. Talvez seja que os seus olhos de espectador incorruptível acabem por ser os únicos a deslumbrar-se com a contemplação bela do silêncio. Talvez Valuska, pela sua pureza, pudesse ser o único a olhar o olho da baleia e a compreender que não compreendeu coisa nenhuma, porque esse olho bestial, “que veio de oceanos remotos”, lhe mostrou o silêncio das coisas divinas, das coisas puras e naturais, a harmonia genuína, antiga e primordial do Universo.
           

            Se, para o realizador, uma conversa no dia-a-dia não passa por questões metafísicas mas sim por ouvir a vida, então deixo em aberto todas as conclusões que possa ter tirado deste filme.

            Perguntaram a Tarr (numa entrevista conduzida por Fergus Daly e Maximilian Le Cain em 2001) o que ele podia dizer sobre as difusas forças do mal que parecem emergir neste filme. Perguntaram-lhe se essas forças vinham do cosmos. Ao que o mestre respondeu:
 “Penso que a responsabilidade humana é enorme. Talvez este seja o maior factor. Sabe, eu não acredito em Deus. Esse é o meu problema. Se eu pensasse sobre Deus, ok, ele teria a responsabilidade sobre a coisa toda, mas eu não sei. Sabe, se ouvir qualquer Multidão, parece que está a ouvir dois cães quando se preparam para lutar. E, como sempre, eu apenas tento pensar no que está a acontecer agora”.



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