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Título do livro:
Les Chants de Maldoror (escrito entre
1868 e 1869)
Autor: Isidore Lucien Ducasse (Montevidéu,
4 de Abril
de 1846
— Paris,
24 de Novembro de 1870), sob o pseudónimo Conde Lautréamont.
“Sede consequentes de vós próprios” - Lautréamont
Segundo André
Breton, Lautréamont foi um dos percursores do surrealismo. Tendo escrito apenas
dois livros (Os Cantos de Maldoror e Poesias), morreu aos 24 anos.
“Substituo a melancolia pela coragem, a dúvida
pela certeza, o desespero pela esperança, a perversidade pelo bem, os lamentos
pelo dever, o cepticismo pela fé, os sofismas pela frieza da tranquilidade e o
orgulho pela modéstia”.
Assim começam as
poesias de Isidore Ducasse e, uma vez que para o escritor “o plágio é
necessário [porque] o progresso implica-o”, inverto, à sua maneira, as
definições de entidades abstractas que ele apresenta e recorro a uma passagem d’Os Cantos
para abrir a porta deste livro-minotauro onde o labirinto aguarda o leitor
capaz:
“Uma última
palavra… Era uma noite de Inverno. Enquanto o vento do norte assobiava por
entre os abetos, o Criador abriu a porta no meio das trevas e deixou entrar um
pederasta”:
Eis Maldoror.
“A grande
família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica mais medíocre”. É
Maldoror quem, através da sua crueldade messiânica, se declara capaz de enfrentar
o Criador para, talvez, corrigir o defeito da sua obra.
Diabo, Morfeu,
vampiro, metáfora, fantasma, anjo, Caim, messias, serpente, insecto, Maldoror
havia penetrado nos mistérios do céu. Tendo contemplado o Criador, que descreve
como sendo detentor de um “orgulho idiota, o corpo coberto por uma mortalha
feita com Lençóis de hospital por lavar”, que “durante todas as horas da sua
eternidade” devorava até aos ossos a Humanidade, Maldoror apercebe-se da
desumanidade divina. Então, lança um enorme grito e o seu grito foi o primeiro
som que ouviu. Depois, como um anjo terrível que tivesse caído, Maldoror desceu
à Terra. Ouviu as vozes dos homens como uma fraqueza, uma voz lastimosa que
pedia compaixão. Aqui começa o seu ódio pelo Homem e, alimentado com o amor com
que o piolho suga o sangue, é como predador que emerge pelo livro, sem que haja
um momento de redenção: “os lobos e os cordeiros não trocam entre si um olhar
pacífico”.
A este manifesto
lírico e insurrecto nem o Criador escapa. Sob um signo surrealista, o Criador é
transformado em rinoceronte; numa parábola, enquanto os homens se banham “na
santidade da fadiga”, o Criador jaz bêbado e imundo no chão da Terra. Visitado
pelos animais que, enojados com a sua aparência, desdenham da sua inércia, é
insultado e ordenado a trabalhar, “em vez de se contentar com o pão dos outros”.
Os Cantos são uma longa espera por este mesmo
Criador, para poder haver um ajuste de contas final. O Criador, como um
cobarde, não se atreve a descer do seu trono para enfrentá-lo e envia-lhe os
seus anjos para que Maldoror mude de ideias e seja, por assim dizer, iluminado.
Mas ele não se deixa vencer.
Enquanto espera,
Maldoror como que observa durante séculos a mesquinhez e subversão de que é
feita a raça humana.
Desde o inicial
elogio que faz ao oceano, sempre igual a si mesmo, passando pelo louvor do
hermafrodita que escolheu a solidão como companhia (um louco, a quem os quatro
pontos do horizonte são como um inimigo invisível que se aproxima, que, quando
quatro homens mascarados o açoitam, lhes sorri e lhes perdoa, falando-lhes dos
destinos da Humanidade), até às vozes majestosas dos polvos que afogam os
marinheiros, aos lamentos da leoa que perdeu as suas crias, à avalanche da neve
quando cai, todo o livro é um manifesto à estupidez humana, cujo riso trocista
Maldoror despreza e que a todas as vozes acima é ela inferior.
Se Maldoror não
sabe rir, não deixa de ser, no mínimo, irónica e, por vezes, propositadamente
contraditória a travessia pelas suas palavras. Da exortação do leitor à espera
de um derradeiro duelo com o Criador, da liberdade sem divino e da metamorfose
para a felicidade (podemos encontrá-la no acasalamento de Maldoror com uma
tubarão fêmea ou num seu sonho em que foi um suíno) ao escarro e à volúpia, do
cosmos ao caos, caricaturando o belo, este é um livro apocalíptico sobre,
buscando o título de um outro, o próprio riso e o esquecimento, sobre a divina
paródia da criação.
Durante a
navegação pelas páginas seráficas, há
a incessante busca do rosto de quem as lê. Um leitor que não tenha ainda
ultrapassado a puberdade. Um leitor, “especialmente se for belo”, que desconfie
deste narrador. Um leitor que seja a antítese da própria humanidade, que exista
sem ser um outro, que resida sozinho no seu íntimo raciocínio, um soldado que
não mostre as feridas, por muito gloriosas que elas sejam. Um leitor a quem,
mais tarde, o narrador apenas consegue distinguir, num rosto de platina, os
olhos.
Duas passagens do prefácio à edição da editora Antígona, escrito por
Silvina Rodrigues Lopes:
“Na época em que
Os Cantos foram escritos, em França a
herança romântica na literatura e o romance gótico repartiam o gosto pela
alucinação, o sonho, a multiplicação de espectros, o terror e o canto do mal, o
qual, com Les Fleurs du Mal de
Charles Baudelaire, coloca explicitamente uma perspectiva não-humanista da
literatura. (…)
Há na escrita em
prosa d’Os Cantos uma crítica de
canto como assunção gloriosa do corpo: o corpo representado na sua voz una.
Assim, Maldoror não é um Mal(doror) psicologicamente representado. É os Cantos do livro, onde comparece e
desaparece, cantos que se propagam na letra do texto e lhe desfazem a nitidez
do mal que, tal como o bem, é uma paixão demasiado humana, uma «sede insaciável
de infinito» através da qual o homem se sublima em rivalidade com um absoluto inatingível Essa sede, que o Homem projecta na natureza – no uivar dos cães,
na ferocidade animal, no oceano como símbolo do idêntico – é o que o move no
louvor que não existe, fazendo deste um objecto do seu canto e moldando nessa
paixão um rosto, uma voz repartida entre o épico e o lírico. Nem épicos nem
líricos, Os Cantos de Maldoror são
multiplicidade em que se desgastam as dualidades do canto – o ódio e o amor, a
culpa e o remorso, o castigo e o perdão -, neles é o desejo que se afirma como
infinito e não como busca de um exterior inacessível, o canto faz-se
dissonância, grito contra-natura que não imita o grito do animal, tal como o
homem o estatuiu, mas o constrói artificiosamente nos descarrilamentos das
conexões previstas. O mecanismo do desejo de infinito como adiamento perpétuo
do viver em nome da glória ou perfeição inatingível é apresentado como o da
razão do «mais astuto e o mais forte» (Canto
Segundo), aquela em que «o fim justifica o meio», em que a violência
exercida sobre o outro é justificada pelo futuro bem, a futura glória.”
Maldoror deseja
matar como o animal, que quando quer matar mata e ninguém o impede. E mesmo que
as leis humanas o persigam com a sua vingança, a sua própria consciência não o
acusa de nada.


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