quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

MALDOROR


Capa da Antígona

Título do livro: Les Chants de Maldoror (escrito entre 1868 e 1869)

Autor: Isidore Lucien Ducasse (Montevidéu, 4 de Abril de 1846Paris, 24 de Novembro de 1870), sob o pseudónimo Conde Lautréamont.


“Sede consequentes de vós próprios” - Lautréamont




   Segundo André Breton, Lautréamont foi um dos percursores do surrealismo. Tendo escrito apenas dois livros (Os Cantos de Maldoror e Poesias), morreu aos 24 anos.

   
  “Substituo a melancolia pela coragem, a dúvida pela certeza, o desespero pela esperança, a perversidade pelo bem, os lamentos pelo dever, o cepticismo pela fé, os sofismas pela frieza da tranquilidade e o orgulho pela modéstia”.
Assim começam as poesias de Isidore Ducasse e, uma vez que para o escritor “o plágio é necessário [porque] o progresso implica-o”, inverto, à sua maneira, as definições de entidades abstractas que ele apresenta e recorro a uma passagem d’Os Cantos para abrir a porta deste livro-minotauro onde o labirinto aguarda o leitor capaz:
“Uma última palavra… Era uma noite de Inverno. Enquanto o vento do norte assobiava por entre os abetos, o Criador abriu a porta no meio das trevas e deixou entrar um pederasta”:
Eis Maldoror.

    “A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica mais medíocre”. É Maldoror quem, através da sua crueldade messiânica, se declara capaz de enfrentar o Criador para, talvez, corrigir o defeito da sua obra.

    Diabo, Morfeu, vampiro, metáfora, fantasma, anjo, Caim, messias, serpente, insecto, Maldoror havia penetrado nos mistérios do céu. Tendo contemplado o Criador, que descreve como sendo detentor de um “orgulho idiota, o corpo coberto por uma mortalha feita com Lençóis de hospital por lavar”, que “durante todas as horas da sua eternidade” devorava até aos ossos a Humanidade, Maldoror apercebe-se da desumanidade divina. Então, lança um enorme grito e o seu grito foi o primeiro som que ouviu. Depois, como um anjo terrível que tivesse caído, Maldoror desceu à Terra. Ouviu as vozes dos homens como uma fraqueza, uma voz lastimosa que pedia compaixão. Aqui começa o seu ódio pelo Homem e, alimentado com o amor com que o piolho suga o sangue, é como predador que emerge pelo livro, sem que haja um momento de redenção: “os lobos e os cordeiros não trocam entre si um olhar pacífico”.
A este manifesto lírico e insurrecto nem o Criador escapa. Sob um signo surrealista, o Criador é transformado em rinoceronte; numa parábola, enquanto os homens se banham “na santidade da fadiga”, o Criador jaz bêbado e imundo no chão da Terra. Visitado pelos animais que, enojados com a sua aparência, desdenham da sua inércia, é insultado e ordenado a trabalhar, “em vez de se contentar com o pão dos outros”.
    Os Cantos são uma longa espera por este mesmo Criador, para poder haver um ajuste de contas final. O Criador, como um cobarde, não se atreve a descer do seu trono para enfrentá-lo e envia-lhe os seus anjos para que Maldoror mude de ideias e seja, por assim dizer, iluminado. Mas ele não se deixa vencer.
Enquanto espera, Maldoror como que observa durante séculos a mesquinhez e subversão de que é feita a raça humana.

    Desde o inicial elogio que faz ao oceano, sempre igual a si mesmo, passando pelo louvor do hermafrodita que escolheu a solidão como companhia (um louco, a quem os quatro pontos do horizonte são como um inimigo invisível que se aproxima, que, quando quatro homens mascarados o açoitam, lhes sorri e lhes perdoa, falando-lhes dos destinos da Humanidade), até às vozes majestosas dos polvos que afogam os marinheiros, aos lamentos da leoa que perdeu as suas crias, à avalanche da neve quando cai, todo o livro é um manifesto à estupidez humana, cujo riso trocista Maldoror despreza e que a todas as vozes acima é ela inferior.

    Se Maldoror não sabe rir, não deixa de ser, no mínimo, irónica e, por vezes, propositadamente contraditória a travessia pelas suas palavras. Da exortação do leitor à espera de um derradeiro duelo com o Criador, da liberdade sem divino e da metamorfose para a felicidade (podemos encontrá-la no acasalamento de Maldoror com uma tubarão fêmea ou num seu sonho em que foi um suíno) ao escarro e à volúpia, do cosmos ao caos, caricaturando o belo, este é um livro apocalíptico sobre, buscando o título de um outro, o próprio riso e o esquecimento, sobre a divina paródia da criação.

    Durante a navegação pelas páginas seráficas, há a incessante busca do rosto de quem as lê. Um leitor que não tenha ainda ultrapassado a puberdade. Um leitor, “especialmente se for belo”, que desconfie deste narrador. Um leitor que seja a antítese da própria humanidade, que exista sem ser um outro, que resida sozinho no seu íntimo raciocínio, um soldado que não mostre as feridas, por muito gloriosas que elas sejam. Um leitor a quem, mais tarde, o narrador apenas consegue distinguir, num rosto de platina, os olhos.

    Duas passagens do prefácio à edição da editora Antígona, escrito por Silvina Rodrigues Lopes:
“Na época em que Os Cantos foram escritos, em França a herança romântica na literatura e o romance gótico repartiam o gosto pela alucinação, o sonho, a multiplicação de espectros, o terror e o canto do mal, o qual, com Les Fleurs du Mal de Charles Baudelaire, coloca explicitamente uma perspectiva não-humanista da literatura. (…)

Há na escrita em prosa d’Os Cantos uma crítica de canto como assunção gloriosa do corpo: o corpo representado na sua voz una. Assim, Maldoror não é um Mal(doror) psicologicamente representado. É os Cantos do livro, onde comparece e desaparece, cantos que se propagam na letra do texto e lhe desfazem a nitidez do mal que, tal como o bem, é uma paixão demasiado humana, uma «sede insaciável de infinito» através da qual o homem se sublima em rivalidade com um absoluto inatingível  Essa sede, que o Homem projecta na natureza – no uivar dos cães, na ferocidade animal, no oceano como símbolo do idêntico – é o que o move no louvor que não existe, fazendo deste um objecto do seu canto e moldando nessa paixão um rosto, uma voz repartida entre o épico e o lírico. Nem épicos nem líricos, Os Cantos de Maldoror são multiplicidade em que se desgastam as dualidades do canto – o ódio e o amor, a culpa e o remorso, o castigo e o perdão -, neles é o desejo que se afirma como infinito e não como busca de um exterior inacessível, o canto faz-se dissonância, grito contra-natura que não imita o grito do animal, tal como o homem o estatuiu, mas o constrói artificiosamente nos descarrilamentos das conexões previstas. O mecanismo do desejo de infinito como adiamento perpétuo do viver em nome da glória ou perfeição inatingível é apresentado como o da razão do «mais astuto e o mais forte» (Canto Segundo), aquela em que «o fim justifica o meio», em que a violência exercida sobre o outro é justificada pelo futuro bem, a futura glória.”

    Maldoror deseja matar como o animal, que quando quer matar mata e ninguém o impede. E mesmo que as leis humanas o persigam com a sua vingança, a sua própria consciência não o acusa de nada.


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