Autor: Al Berto (Coimbra, 11 de Janeiro de 1948 - Lisboa, 13 de Junho de
1997)
"Sinto-me
como se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo"
“- Não tenho frustrações de
infância, porque não tive infância. Aos oito anos
era um homem adulto, só mais tarde é que fui criança.” (de uma
entrevista)
Alberto
Raposo Pidwell Tavares nasce em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948. No ano
seguinte já está em Sines, onde passa parte da infância e adolescência. Poucos
conhecem o seu lado escultórico, mas os amigos de infância ainda recordam os
"bonecos" em argila que esculpia em casa, muito antes da António
Arroio.
Teve sempre um ar extremamente
irreverente para o seu tempo. Filho de família da alta burguesia de origem
britânica extraordinariamente conservadora, na sua adolescência, traja de modo
displicente de calças de ganga e ténis rotos, para escândalo geral. Terá sido a
primeira afirmação da sua diferença intelectual.
ANOS 60
Frequentou
diversos cursos de artes plásticas, em Portugal e em Bruxelas, onde se exilou
em 1967.
Na época de
permanente vertigem, de enorme agitação social, cultural e política que era a
do Maio de 68, entrou para a Ecole Nationale Superieure d’Architecture et des
Arts Visuels. Com amigos artistas plásticos, fotógrafos e escritores, fundou a
associação Monfaucon Research Center e publicou um livro de desenhos: Projects
69.
ANOS 70, 80
“A escrita vem de uma
perturbação”
Al Berto viajou por alguns países,
anotando o que via em diários de viagens que transportava consigo. Como disse
para a Rádio Cultura (em 1994):
“(…) havia um diário
de viagens imenso. Não era só escrito, era desenhado e era onde eu arrecadava praticamente
tudo o que eu encontrava pelo caminho: desde
fotografias e postais, a nomes
de pensões, de ruas, mapas de cidades etc. E comecei a
aperceber-me de que, nesse
imenso diário, digamos assim, havia material que tinha uma qualidade, que não
era propriamente a de um registro imediato, mas sim que me apontava para outras
preocupações.”
Em 1971, abandona o curso de pintura. “ Como a pintura é
muito mais demorada de executar, requer outros meios, mais caros, a escrita basta
o papel e caneta, começou assim a minha mudança para a Literatura.” (mais
tarde, a sua ligação às artes plásticas manifestar-se-á na sua colectânea “A
Secreta Vida das Imagens”).
Em
1974, ainda em Bruxelas, expressa-se pela primeira vez em português (até aí,
escrevia em francês), escrevendo Epopeia
antes da Queda, que destrói de imediato.
Para
se entender em que trajecto literário se erguia a poesia de Al Berto, vejamos
estas duas observações:
Primeira.
Como explica o crítico literário Manuel Magalhães na sua obra Os dois Crepúsculos, nos anos 70 surge
na poesia um discurso da emoção. “Irrompe uma explicitação dos lugares do
corpo, uma afirmação dos desejos e das intenções, uma narração dos confrontos
com a ordem do lugar, ligados a um discurso mais empenhado em declarar do que
em sintetizar ou visualizar. Daqui, igualmente, um novo impulso ideológico,
pelo qual o político regressa ao claramente exprimido. Não já o da ordem
burocrática do neo-realismo, mas o da agressão, da sexualidade, da droga, da desordem.(…)”;
Segunda.
Conforme diz também Fernando Pinto Amaral: “(…)Em todo o caso, convém referir
que alguns autores regressaram a um certo lirismo e a uma expressividade mais próxima
das sensações e dos sentimentos individuais, onde avultam grandes obsessões do
amor, da morte, do tempo, etc. Tal retorno aparece recortado num pano de fundo
onde se verifica o recrudescimento de um pathos irracional, fruto das emoções e
por isso associado ao eclodir de uma subjectividade por vezes mesmo
confessional ou intimista, que se oferece a partilha afectiva do leitor e
recorre com alguma frequência a imagens ou símbolos de teor neo-romantico.(…)”
É
ainda sobre este trajecto emocional que surge pela primeira vez o pseudónimo de
Alberto: Al Berto. A criação do pseudónimo estava ligada à transição do pintor
para o poeta, ao intimismo que se queria exposto pelo próprio escritor.
“Eis
a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite. os corpos de Alberto
e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades” (in O Medo)
Assim
o explicou para Diário Popular:
“(…)
Senti necessidade de abrir a brecha com uma coisa que era muito minha e abri o nome ao meio, uma cisão num
determinado percurso. Foi a maneira de não esquecer esse abismo.”
![]() |
| fotografia rasgada por Al Berto em '80s para marcar a cisão do nome |
Em Novembro de 1974, o poeta nómada regressa a
Portugal e inaugura a editora Editorial Pidwell Tavares sob o slogan “SEJA
BREVE STOP LEIA-NOS STOP”. É nela que produz, entre 77 e 80, vários dos seus
livros e os livros dos seus amigos, livros esses que expunham alguns tabus
sociais, entre os quais o da homossexualidade. Foi pela sua editora que
publicou as suas primeiras colecções: À
Procura do Vento num Jardim d’Agosto (em 77) e Meu Fruto de Morder Todas as Horas (em 80).
Em
Sines, abre a livraria “Tanto Mar”.
Como
tudo aquilo que não patrocina trabalhos mainstream, a editora revelou-se um
fracasso financeiro.
![]() |
| cartaz de apresentação da editora |
Em 1987, foi reunida grande parte da sua obra
poética n’O Medo (Trabalho Poético
1974-1986).
Em Abril, Fernando Pinto do
Amaral esboça o percurso poético de Al
Berto: a partir do deserto, publicado no Jornal de Letras.
“Na mobilidade do ser desvenda-se o inamovível da alma
derrotada face à
odiosa corruptibilidade do
corpo. Face ao imposto afastamento de rostos
eternamente presentes numa
memória ignota do esquecimento. E daí que nos faça
mergulhar em paisagens
marcadas pela secura amorfa de uma planície sem fim. Uma
escrita não de papel mas a
este circunscrita por ser a única ponte livre à sua necessária
travessia por entre vivos(...)”
A 5 de Novembro, no Diário Popular, Eduardo Guerra Carneiro revela “A
Coragem do Medo”:
“Al Berto: uma voz incómoda,
pela marginalidade
assumida. Não a marginalidade folclórica,
alfacinha, das capelas e santuários da moda
que nos pretendem impor, mas
sim o radical posicionamento face à vida com a
escrita”.
É com O Medo
que Al Berto ganha, logo em 1987, o PEN-CLUB de Poesia.
Em 1988, Al Berto,
juntamente com amigos, publica pela Frenesi o volume colectivo Dep. Leg. nº 23571/88. A crítica reagiu
de imediato pela mão de Manuel João Gomes, a 6 de Dezembro no Jornal de Letras:
“[em letras destacadas] No mundo da poesia portuguesa
continua a haver lugares marginais onde periodicamente teimam em manifestar-se
a rebeldia sempre renovada do Surrealismo, a poesia delirante e fragmentária, o
desenho obsceno e outros”
Ao lado dos poemas de um dos
autores, Paulo da Costa Domingos, (um bloco de textos com
o titulo eloquente de Sedição), de outro dos autores, Helder
Moura Pereira, (com o titulo Segundo
Livro de 74 Horas) e de outro,
o autor Rui Baião, (com o título geral de Infestação)
aparecem uma série de desenhos feitos em pleno delírio por outro autor, Carlos
Ferreiro, enquanto Al Berto, sob o titulo de Resquiat in Pace, dá de si uma fotografia e, em facsimile, uma Acta do que lhe sucedeu nos primeiros
meses de vida (aleitamento, desmame, papeira, vacinas). O corpo exposto.
“Dep. Leg. n.º 23571/88 é um
objecto fragmentado (no todo e em cada uma das
partes que o constituem)
desmedido, inquietante, aberto a uma loucura sem método.
Participa evidentemente do
espírito que informou, há quarenta anos, a aventura poética (louca e suicda)
protagonizada por Antonin Artaud (1896-1988). E o percurso deste actor-poeta,
entre o surrealismo e o manicómio, passando pelo ópio, está brilhantemente
documentado no livro que Paulo da Costa organizou e traduziu, que Carlos Ferreiro
ilustrou e que inclui, de Artaud, Em Plena Noite ou o Bluff
Surrealista e 2 Cartas sobre o Ópio e o Suicídio, além
do depoimento do médico que tratou Artaud nos asilos de Ville-Evrard e Rodez.”
Em 1989, Al Berto é entrevistado para a revista Ler:
“(…)De que é que se lembra, sobre a vida?
.
– Lembro-me de uma cena de caça, com o meu pai, de como ele estava vestido (um pouco antes de ele morrer), lembro-me de ver como apontou a arma, de como o pato caiu. Lembro-me da primeira vez que me chamaram maricas – foi a minha avó. Lembro-me de Barcelona, de estar num quarto e de, de repente, se abrir uma janela e de um rosto espreitar lá para dentro. Há muitas coisas que eu lembro, algumas quero perdê-las, outras conservo-as. Como uma vez em que eu estava muito apaixonado por um rapazinho que vendia cigarros na feira de Málaga e não conseguia vender nada… então eu fui ter com ele, descalcei-me e fui eu pela feira fora, a vender cigarros, com o tabuleiro de madeira(…)
.
– Lembro-me de uma cena de caça, com o meu pai, de como ele estava vestido (um pouco antes de ele morrer), lembro-me de ver como apontou a arma, de como o pato caiu. Lembro-me da primeira vez que me chamaram maricas – foi a minha avó. Lembro-me de Barcelona, de estar num quarto e de, de repente, se abrir uma janela e de um rosto espreitar lá para dentro. Há muitas coisas que eu lembro, algumas quero perdê-las, outras conservo-as. Como uma vez em que eu estava muito apaixonado por um rapazinho que vendia cigarros na feira de Málaga e não conseguia vender nada… então eu fui ter com ele, descalcei-me e fui eu pela feira fora, a vender cigarros, com o tabuleiro de madeira(…)
Provavelmente também há outras vias…
.
– Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. Por isso é que no Lunárionão há lugar para a criação de uma nova moral.
.
Atrai, essa vertigem?
.
– Sim. Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.
.
– Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. Por isso é que no Lunárionão há lugar para a criação de uma nova moral.
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Atrai, essa vertigem?
.
– Sim. Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.
Mas há perigos. Perigos graves, penso eu.
Perigos de morrer. A mim, pessoalmente, desagrada-me a ideia de morrer já…
.
– Claro que tudo isto é perigoso. Mas as pessoas aproveitam-se disso para serem pérfidas. A questão da SIDA, por exemplo, quando se procura moralizar a questão. Para quê moralizar o problema – só porque é uma epidemia incurável com origem no sexo?
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– Claro que tudo isto é perigoso. Mas as pessoas aproveitam-se disso para serem pérfidas. A questão da SIDA, por exemplo, quando se procura moralizar a questão. Para quê moralizar o problema – só porque é uma epidemia incurável com origem no sexo?
(…)
– Não se pode viver sem medo. Há duas formas de conceber
isso: o medo que nos faz estar de pé atrás, e o medo interior, que tem a ver
com a escrita. Tenho medo de escrever. Cada vez mais, aliás.
Isso tem a ver
com o lado religioso da escrita?
.
– Eu acho que isso está ligado com a descida aos infernos. Fui educado num colégio católico e acreditei nisso tudo durante muito tempo. De repente, por motivos vários, ou apenas um, não sei… passou a ser tudo falso. Perde-se Deus e é como se fosse o princípio do fim. Abre-se um buraco muito grande, tudo o que estava programado deixa de existir, de ter sentido. Tudo é posto em causa. O que é que se pode fazer a seguir para encontrar Deus? Descer aos infernos. Fazer o percurso ao contrário(…)”
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– Eu acho que isso está ligado com a descida aos infernos. Fui educado num colégio católico e acreditei nisso tudo durante muito tempo. De repente, por motivos vários, ou apenas um, não sei… passou a ser tudo falso. Perde-se Deus e é como se fosse o princípio do fim. Abre-se um buraco muito grande, tudo o que estava programado deixa de existir, de ter sentido. Tudo é posto em causa. O que é que se pode fazer a seguir para encontrar Deus? Descer aos infernos. Fazer o percurso ao contrário(…)”
Ainda
em 1989, a RTP2 transmitiu, no programa Lusitânia Expresso, um trabalho de
vídeo experimental realizado por Paulo Miguel Forte. Intitulado Os Dias sem
Ninguém, o trabalho era baseado na poesia de Al Berto.
ANOS 90
A
21 de Dezembro de 1990, o Público lembra uma noite de poesia in A arte
de ser natural com a poesia, “Mário
Cesariny e Al Berto disseram poemas no Bairro Alto” com Torcato Sepulveda [no
Bar Artis, passada quarta-feira, Rua Diário de Notícias].
“ […] tinham pensado num recital em
homenagem aos poetas que passaram
pelo
Bairro Alto: Camilo que lá nasceu, Pessoa que lá morreu, António Maria Lisboa
que
por lá passou. Mas acabaram por concluir que “o mais honesto era cada um dizer
os
seus poemas”.] “Os dois poetas lançaram uma moeda ao ar para saber quem diria
primeiro,
e a sorte foi favorável a Al Berto. Começou com um belíssimo poema dedicado ao
seu companheiro de sessão: ‘Cesariny e o Retrato Rotativo de Genet em
Lisboa’.
[...] A cumplicidade entre os poetas foi, aliás, constante. Abraçaram-se,
beijaram-se.
Cumplicidade de gestos mas também cumplicidade de gostos, que se
traduziu
na poesia escolhida por ambos. Se Al Berto fala do ‘voo frenético do sexo’
de
‘devassar a noite de outros corpos inocentes’, Cesariny diz: ‘Devo estar sempre
pronto
para ser rei e lutar/Devo ser Júlio Cesar e Cleópatra’. [também lê ‘se um dia a
juventude
voltasse...’...] ‘Acabou. Já podem fazer barulho’, avisou Cesariny.”
ENTREVISTA DE JANEIRO DE 1991 (conduzida por Tereza
Coelho no jornal Público)
“P. - Escreve à mão?
R. - Sempre. Com o meu Rolls a tinta permanente – uma Mont Blanc.
Caríssima, percebe? Sou um clássico, tive uma avó inglesa.
P. – Então aplique o rigor e diga qual é a melhor imagem para uma
fotografia: um pôr-do-sol, uma mulher grávida ou um acidente?
R. – Olhe, uma boa imagem, se calhar, só depende de quem a faz. Mas
parece-me que o pôr-do-sol é uma coisa manhosa. Não sou um fanático
da luz.
Talvez a mulher grávida, sobretudo se se chamar Carla, ou Sandra, ou
Margarida
Vaqueiro. E grávida... Sei la! Nas civilizações primitivas,
entende... No entanto, acho
que o acidente, no fundo, é capaz de dar a melhor imagem. Digamos que
poderia ser
um acidente ao entardecer, com um raio de sol a latejar ainda na
pernoca magoada da
grávida, no telejornal, a gemer, no momento exacto em que levo à boca
o bifinho
quotidiano. É alegre! O miúdo salvou-se e logo in loco o baptizaram.
Elviro
Passagem de Nível.
P. – Hobbes disse que a única paixão da vida dele foi o medo. E da
sua
vida?
R. – A única paixão da minha vida foi alguém que tinha um olhar de
violeta estarrecida. Mas acho que houve mais flores, não me lembro.
P. – O que e a traição?
R. – Aprendi o que era a traição pelas traições que sofri. Mas não
pratico. Nunca me ensinaram a trair, não faz parte da minha educação.
P. – Nem os amigos? Quantos é que ainda tem?
R. – Ao certo não sei. Sei que são poucos, sempre foram muito poucos,
e são cada vez menos. Não me lembro de ter traído um amigo, pelo
menos
intencionalmente...Comecei a detestar toda a gente. Já era tempo, não
acha?
P. – Então, o que é que faz falta ao mundo?
R. – Tempo para não fazer nada, e cada macaco no seu galho.
P. – Sem ambições?
R. – Uma ambição que alimento é confundir-me com Deus e viver
num camião TIR. E beber maléficos álcoois enquanto aprendo a odiar os
meus
inimigos – eles merecem.
P. - Escolha o seu epitáfio.
R. – Agrada-me esta imensa mentira roubada a um amigo: “O que é
verdade nunca acaba.”
UM MOMENTO DE TENSÃO EM JANEIRO DE
1992
Para além dos
devidos artigos de crítica literária, o jornalismo não poupa
momentos
de tensão, mesmo se se trata de um incidente que devia ter passado
despercebido
por resultar de um equívoco da organização. Estamos a falar dum
acontecimento
em Coimbra que a imprensa não soube calar. Porque ser poeta é
assumir
a vida inteira com os seus tiques e os seus eventos inesperados. Porque o
anedótico
pode as vezes revelar uma variação do uno.
José
Fonseca esteve lá e contou os factos no Público, de 19 de Janeiro de 1992,
in
Poetas vaiados em Coimbra, “Al Berto e estudantes insultam-se”:
“Mais recentemente, um homem mordeu num cão que
ficou sem um pedaço
de
orelha. Anteontem os poetas vaiaram poetas.
Eram
23h00, pouco passava. O recinto estava cheio, algumas 300 pessoas na
sala
e o PÚBLICO teve acesso à gravação. O poeta começou por rogar silêncio e
logo
aí começou o desacato. ‘E uma questão de respeito pelos outros e pelo que
fazem’,
insistiu. ‘Vai dormir!’, foi a resposta dos clientes do bar: queriam música.
Diz
a
gerência que estava anunciado um espectáculo de jazz.
‘Pagaram-me
para estar aqui’, explicou Al Berto, ‘e não escrevo livros para
idiotas’.
Depois, pediu gelo, despreocupado com os mais próximos: ‘Estou bem, só
preciso
e de um reforço aí no copo.” Cerca de setenta pessoas estavam em frente ao
poeta.
Descendentes da tribo de Antero. Os restantes multiplicavam-se em
burburinho
pela imensa sala. Alguns minutos depois, o recital começava. [...] ‘Habito
neste
pais de agua por engano’, quando alguns estudantes começaram a cantar um
fado
tipo ‘Coimbra tem mais encanto’.
‘Vocês
são mesmo cretinos, foda-se’, voltou a reagir Al Berto. “Acho que não
leio
mais nada. Mas não me vou embora sem vos dizer duas coisas: desde 1985 que
leio
poemas em público e é a primeira vez que não consigo ler, ou que o faço com
tanto
sacrifício. (...) Era a mesma coisa se eu entrasse quando vocês estão a fazer
exames
e dissesse: então e se fossem apanhar no cu? Só que não faço exames há vinte
anos,
sou profissional [apupos]... sou escritor há vinte anos, há vinte que escrevo e
há
dez
que escrevo neste país. Não estou sozinho, felizmente não estou sozinho.” E
rematou:
Vocês precisam é de muitos Saramagos (...) porque ele até nem escreve
muito mal
(...)”
1993: lançamento do Anjo Mudo pela Contexto
O poeta Mário Santos (através
do Público, que divulga a boa-nova) entrevista Al Berto sob o título “Há Gente
de Mais a Escrever Poesia”:
“Até há bons poetas a
publicarem demasiado... Isto já é uma coisa que me escapa,
porque a partir de 1985 comigo
acontece precisamente o contrário, que é a escassez.
E é uma coisa estranha: não
sinto nem a necessidade nem a urgência que sentia antes
em escrever. Há uma grande
lentidão e passo muito mais tempo no que
provavelmente irei escrever e,
curiosamente, acabo sempre por concluir que já não
vale a pena. A escrita é um óptimo caminho para o silêncio
e acho com todo o
respeito que tenho pelas
pessoas que continuam publicando, umas desalmadamente e
outras regularmente – que o
que eu quero é o silêncio, e o silêncio também no papel...
Presentemente só escrevo em
casa, que me protege do exterior. Escrevo
sempre à mão, não gosto de
computadores, mas gosto do barulho da máquina de
escrever. Tenho uma apetência
pelo lado físico da escrita: o papel, o cheiro da tinta,
as canetas. Há um lado na
beleza do momento em que se escreve que tem a ver com
isso e que em mim provoca
sempre um grande prazer, que a escrita às vezes não
provoca. Durante muitos anos
escrevia metido na cama – e presentemente só consigo
ler deitado – mas agora, como
tenho uma janela virada ao mar com uma vista
sumptuosa, sento-me aí a
trabalhar. Quando mudo de sítio tenho frequentemente
tendência para escrever coisas
emocionais. Há que produzir durante o
inverno,
porque a partir da primavera
dou muita atenção aos vinhos, às comidas, às saídas
nocturnas... Para dizer a
verdade, não me apetece fazer nada, o Verão para mim é
uma coisa muito física. Se
calhar é porque sou Capricórnio... […]”
“(…) Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre
mares e desertos, mudei de casa
quarenta e quatro vezes e conheci corpos que
deambulavam pela vasta noite…
Avancei sempre, sem destino certo.
(…)
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no
decorrer da vida, se despojou das coisas
materiais e das tarefas quotidianas. Aprender a
viver sem possuir nada, sem um
modo de vida(…)” (in O Anjo Mudo, “Aprendiz de Viajante”)
1 DE JUNHO DE 1995, O DIA DO ORGULHO GAY
Defendendo
o direito à liberdade sexual, para o qual contribuiu a poesia de Al Berto, é
neste dia que pela primeira vez se reúne a comunidade homossexual portuguesa, a
fim de comemorar juntamente com o resto do mundo os motins de Stonewall. Al
Berto leu aí alguns dos seus poemas, no Jardim Constantino em Lisboa.
1997, AL BERTO NO HORTO DE INCÊNDIO
“É claro que há obsessões melhores que outras. Para mim,
uma boa obsessão é não querer estar sozinho.(…)
A minha obsessão principal é não ser como os outros.(…)
As obsessões mais estúpidas
são as de “deixar de...”. Deixar de fumar, deixar de
comer, deixar os prazeres da
vida... francamente! Ter obsessões faz parte da qualidade de
vida e o principio é o
denominador comum: quanto mais obsessões um indivíduo tem,
melhor é a sua qualidade de vida.” (numa entrevista)
Em
1996 escreve Horto de Incêndio, o seu
último livro publicado (1997) em vida.
“noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas – noutros tempos
os dias corriam com água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido(…)”
(do poema “Vestígios”, in Horto de Incêndio)
Al
Berto está cansado e doente, a morte está próxima. Tal como um Cristo num horto
de oliveiras que dissesse "As ondas da morte me
cercavam, tragavam-me as torrentes infernais; na minha angústia chamei pelo
Senhor, de seu templo ouviu a minha voz." (Bíblia, Sl 17, 5 ss).
Esta
é uma poesia de solidão e esgotamento. A euforia silenciou-se, é um “campo de
crateras extintas”. O sujeito poético cauteriza na melancolia do passado e
parte “para onde ninguém lhe possa falar ou reconhecer”.
“ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
(…)
que o dia te
seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço”
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço”
Ele
diz, acerca do seu poema “morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de
lisboa, a 20 de novembro de 1996” presente neste livro:
“(…) Quando li o poema, no Coliseu, em Novembro de
1996, estive a anunciar a minha
morte sem que as pessoas o soubessem. Talvez seja um
privilegio um poeta anunciar a
sua morte. Durante 15 dias vivi nessa expectativa do
fim. Todos os dias morremos
muitas vezes: as perdas, os erros, aquilo que
arrumamos dentro de nos… Seria ideal
atingir o momento da morte com uma grande
serenidade. Yourcenar disse que queria
morrer de olhos abertos e atenta. O mesmo digo eu.”
Em Março de 1997, dois meses antes de morrer, Al Berto é
entrevistado por Manuel Hermínio Monteiro:
1 – Há bastante
tempo que não publicavas e no entanto este livro, até pelo título, tem um
carácter de urgência. Porquê?
Telegrama 1: Todos os meus livros tiveram sempre um
carácter de urgência. Porque ao terminar um livro nunca tive a certeza que
um outro se seguisse. Cada um deles está intrinsecamente ligado a um momento da
minha vida. A vida e os livros acontecem…Stop.
2 – Há os
poemas «inferno», «sida», «febre», «fantasma», «senhor da asma». É um livro
triste, trágico quase apocalíptico?
Telegrama 2: Não podia
ser de outra maneira. Veja-se os tempos
que correm, tempos de manipulação e de enxertia, tempos de metamorfose maligna
e hipocrisia. Já não há cidadãos, mas contribuintes – o que quer dizer que o
corpo foi substituído por uma série de algarismos. Stop.
3 – A segunda
parte, «Morte de Rimbaud» foi dito em voz alta no Coliseu dos Recreios de
Lisboa. Ao escreveres existe alguma vontade de que as tuas palavras sejam para
ser ditas em voz alta?
Telegrama 3: Sempre
defendi a oralidade. É uma tradição da poesia portuguesa. Não publico poemas
sem os lerem voz alta muitas vezes. «Morte de Rimbaud» foi escrito
propositadamente para o espectáculo Filhos de Rimbaud e para ser dito em voz alta. Tentei ser claro. Stop.
4 – Coloquiais
e íntimos, poemas como pequenos segredos ou conversas afectivas. Esta tua
poesia parece nascer da necessidade de uma confidência. A poesia é feita para
todos?
Telegrama 4: Se calhar
é porque toda a minha escrita é um diálogo
comigo mesmo… Uma viagem em direcção ao silêncio. Não sei… Não. A poesia
não é feita para ninguém em especial, mas uma vez publicada é para quem a lê.
Talvez este livro seja um livro para ler também em voz alta. Stop.
5 – O que é que
a tua vida deve à poesia?
Telegrama 5: A poesia
tem-me levado ao despojamento daquilo que é lixo e me atrapalha a vida. Cada vez mais me parece que a poesia é a
única linguagem capaz de atingir o rosto de um deus e feri-lo moralmente, nem
que fosse por um milésimo de segundo.Stop.
In Hablar/Falar de Poesia, n.º 1, 1997
Um mês antes de
morrer, para o Jornal de Letras, a 23 de Abril de 1997, Al Berto, “O poeta
como viajante”, é entrevistado por Maria João Martins e Ricardo de Araújo Pereira:
“JL – Sem pretender fazer uma
análise literária do seu último livro, Horto de
Incêndio, parece-me que
estamos diante de uma poesia mais lapidar, mais depurada do
que aquela que lhe conhecíamos...
AB – São, de facto, versos
mais lapidares. De resto, não foi por acaso que
estive tanto tempo sem
publicar poesia, apesar de ter escrito e terem surgido poemas
em catálogos de exposições.
Todavia, é verdade que não surgia nenhum livro de
poemas desde A Secreta Vida
das Imagens. Entre este livro e o Horto de Incêndio, houve,
efectivamente, uma mudança na
minha escrita. Surgiram coisas novas e outras que
estavam arrumadas.
JL – Que coisas arrumadas eram
essas?
AB – Temas importantes do meu imaginário,
como a sexualidade, a noite, o
sentido da viagem e da vida
como espaço de viagem. No futuro, mesmo que
apareçam mais livros de
poesia, serão mais espaçados entre si e mais pequenos. Não
escrevo livros de poemas para
escrever. Para mim eles têm um caracter de urgência
ou não tem. Depois, a escrita
conduz-me ao silêncio. Se um dia deixar de escrever,
isso não me afligira. Não
encararei essa circunstancia como uma questão de secura da
fonte inspiradora. Garanto-lhe
que não haverá drama nem conflito interior. Neste
momento, a depuração, a concisão
de que falou há pouco fazem parte de um
percurso interior e de um modo
de relacionamento com o mundo. Neste livro
apeteceu-me no que me rodeava
de forma mais imediata. Daí o aparecimento de
poemas como Sida.
JL – O Al Berto pertence ao
grupo de poetas que não acreditam na
inspiração. Mas há também
aqueles que dramatizam imenso o acto da escrita, que
falam da angústia que deles se
apodera quando têm que escrever...
AB – Não acredito nos poetas que dizem que escrevem como respiram –
nesse
caso, os poemas de um asmático seriam terríveis, mas também
não acredito da tragédia da página em branco. Mesmo quando não estou a
escrever, estou sempre a escrever, embora mentalmente. Quando passo à escrita, já
está tudo na minha cabeça, pois os poemas fazem-se com palavras, mas precisam
de ideias. É preciso que não nos esqueçamos disto. Neste momento está-se a
criar uma série de academismos e de palavreados, que formalmente são fantásticos,
mas onde não há uma única ideia. Há
uma quantidade de gente que
anda para aí a escrever e aquilo espremido não dá em
nada. Há mais virtuosismo do
que poesia e nenhum poema se compadece dessa
situação. Os seus autores não
correm riscos e a poesia que não corre riscos
e uma
chatice.
JL – Nao lhe parece que essa
poesia sem riscos corresponde a um modo de
estar na vida também sem eles?
AB – Não tenho a certeza. Mas
quando não se arrisca na vida, não se arrisca
em nada. [...] Pessoalmente, não
consigo separar a vida da literatura e vice-versa. Está
tudo profundamente ligado.
Para mim, é assim: tem de haver uma grande coerência
na maneira como se escreve,
como se vive, como se está no mundo, senão nem a vida
nem a poesia fazem qualquer
sentido. [...]
JL – No Horto de Incêndio, há
um verso lindíssimo, que se refere a ≪dias que
sejam limpos≫.
Corresponde a um ideal seu? O que seriam os seus dias limpos?
AB – Esse verso tem a ver com
o lado místico da minha poesia. Ela ajuda-me
a limpar o lixo que me rodeia.
Repare que vivemos num planeta completamente
lixado. Não partilho de uma
perspectiva ecológica de combate [...], mas tenho a
noção de que se perdeu uma espécie
de harmonia que eventualmente houve. Já
estamos
em plena desumanização, mas eu recuso-me a participar nessa merda. Tenho
afectos, amor quando isso
acontece, paixão, mas, como não vivo sozinho, apercebo-me
de que estou cada vez mais um
homem das cavernas.
JL – Vivemos numa época sem
memória...
AB – Ao contrário do que
acontece em outras civilizações, como os
aborígenes da Austrália, onde
ela é muitíssimo preservada. Hoje, qualquer miúdo de
vinte anos acha o techno um
milagre da musica moderna, mas o curioso é que não
estabelece qualquer ligação
com o que vem de trás. As coisas nascem porque houve
antecedentes para elas. As ligações
às vezes são estranhíssimas, mas existem...
JL – Apesar de tudo, acredito
que esta situação já foi pior, nomeadamente ao
longo dos anos 80...
AB – Nos anos 80 houve um
culto do corpo e da pose que tem muito a ver
com estados do espírito e do físico
herdados dos anos 60, embora isso geralmente
não seja dito. Os anos 70, em
contrapartida, não foram tão cinzentos como se diz.
Talvez não tenham sido muito alegres,
mas tiveram coisas fantásticas. Porque é que
continuamos a ouvir os Doors,
Bob Dylan, David Bowie e Velvet Underground?[…]≫
Depois da experiência íntima com o
exílio, do desejo homoerótico, o ser errante confronta-se com a morte próxima:
“E eu quero que esse cancro desapareça, uma vez que,
segundo me disseram, é
curável. A luta não se faz só
com pastilhas, mas com a cabeça. Se fosse seropositivo,
também o assumiria. Houve um
momento em que pensei estar tudo perdido. Alguma
coisa mudou. Ter estado do
outro lado e estar agora aqui causou-me um grande
choque emocional. E deu-me
forca para lutar.”
“Aqui não há travão, é uma violência
repentina. Que não escolhi. O corpo falha sem pedir licença.” (numa entrevista)
“há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da
vida (…)
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade”
O que lhe ficou, “enquanto a
língua segrega uma saliva exterminadora”, na “casa onde só sobrevive a memória
turva/dos poemas amados”, terão sido os “Efémeros passos, surdas gargalhadas,
ideias que se evaporam lentamente”? “deus tem que ser substituído rapidamente
por poemas”.
Quem tiver a edição d’O
Medo da Assírio&Alvim, veja o índice de primeiros versos e leia-o
corrido. Não pode deixar de se surpreender. Quem não tiver, que a compre
imediatamente.
Al Berto falece dia 13 de Junho de
1997.
Era de noite. Na mesa-de-cabeceira, um jornal. A página
65, numerada à mão, guarda as suas últimas palavras escritas algures no início
de Maio, dia 5 talvez: “Tenho
cada vez menos força para
escrever. Mas é tudo o que me resta. Mesmo coisas sem
sentido.”
Segundo a escritora Hélia Correia acerca de Al
Berto:
“Dificilmente se acredita que os seus textos ainda
existam, que estes livros não
se apaguem. Pois ao contrário
do lugar comum onde se encontra a vã consolação, ao
contrário da crença de que a
escrita, trazendo glória, traz eternidade, há este
sentimento que é o meu, de que
para certa rara gente tudo foi uma única coisa. Não
ocorreu uma separação e penso
sempre que as ervas que devoram um mortal
devorarão também a sua obra.”
“a
única coisa que levo comigo é a cápsula de laranjada
atada a um cordão em couro deste-ma tu um domingo
quando ainda passávamos perto do rio
íamos ver o sol morrer nas águas
caminhávamos sem destino pela cidade
o crepúsculo atingia-nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem
no fundo nada a justifica
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo
de vaga em vaga de ressaca em ressaca
fui arrastando o meu próprio naufrágio
mas ser-me-ia difícil falar-te destas catástrofes
prefiro calar-me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas
enquanto te escrevo esta última carta
é também a última vez que penso em ti
sempre habitei este país de água por engano
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina
estas paredes vomitadas
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam
vou migrando de corpo para corpo
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu
escrevo-te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite
quem poderá afirmar que daqui a instantes
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite?
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz
no écran da cidade amanhecendo em mim
esqueço como me chamo
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos
mesmo no caso de eu permanecer aqui
neste país de água por engano
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu”
atada a um cordão em couro deste-ma tu um domingo
quando ainda passávamos perto do rio
íamos ver o sol morrer nas águas
caminhávamos sem destino pela cidade
o crepúsculo atingia-nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem
no fundo nada a justifica
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo
de vaga em vaga de ressaca em ressaca
fui arrastando o meu próprio naufrágio
mas ser-me-ia difícil falar-te destas catástrofes
prefiro calar-me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas
enquanto te escrevo esta última carta
é também a última vez que penso em ti
sempre habitei este país de água por engano
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina
estas paredes vomitadas
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam
vou migrando de corpo para corpo
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu
escrevo-te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite
quem poderá afirmar que daqui a instantes
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite?
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz
no écran da cidade amanhecendo em mim
esqueço como me chamo
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos
mesmo no caso de eu permanecer aqui
neste país de água por engano
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu”







